segunda-feira, outubro 03, 2016

ARGUMENTOS & SALSICHAS



A máquina de salsichas da razão

Aquilo que é maravilhoso num argumento sólido é o seu poder de preservar a verdade. Tomemos, por exemplo, o argumento seguinte:


   1. Francisco é um homem.
   2. Todos os homens vivem na terra.
   Conclusão: Francisco vive na terra.

Este argumento forma-se de duas afirmações, ou premissas, e de uma conclusão. Num argumento dedutivo, como este, as premissas implicam supostamente a conclusão. O argumento, se válido, fornece-nos uma garantia lógica: se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o é. Neste caso, o argumento é válido. As premissas implicam realmente a conclusão.
É claro que se introduzirmos num argumento dedutivamente válido uma ou mais falsidades, não há qualquer garantia quanto ao que obteremos. A conclusão pode, ainda assim, ser verdadeira. Mas pode ser falsa. (Suponhamos, por exemplo, que a primeira premissa do nosso argumento é falsa: o Francisco não é um homem – é um extra-terrestre que vive no planeta Plutão; então a nossa conclusão é falsa.)
Portanto, um argumento dedutivo válido preserva a verdade. Se introduzirmos premissas verdadeiras, temos a garantia lógica de que sai uma conclusão verdadeira. Se estivermos interessados em ter convicções que sejam realmente verdadeiras, trata-se de um belo resultado.
Para aqueles que gostam de analogias, podemos dizer que as formas válidas de argumentos dedutivos funcionam um pouco como as máquinas de salsichas. A única diferença é que em vez de introduzirmos carne de salsicha e de saírem do outro lado salsichas, é-nos dada a garantia de que se introduzirmos premissas verdadeiras, sairão conclusões verdadeiras.



A máquina de salsichas indutiva

A argumentação dedutiva não é a única forma de argumentação sólida. Há também os raciocínios indutivos. Eis um exemplo de um argumento indutivo:


  1. A maçã um tem sementes.
2.          2. A maçã dois tem sementes.
      3. A maçã três tem sementes.
    [...]
  1000. A maçã mil tem sementes.
  Conclusão: Todas as maçãs têm sementes.

Este argumento tem mil premissas (embora eu não me tenha dado ao trabalho de listar mais do que quatro). Num argumento indutivo, as premissas apoiam supostamente a conclusão. Aqui, a palavra-chave é apoiam. É claro que estes argumentos não são (e não pretendem ser) dedutivamente válidos. As premissas não implicam dedutivamente a conclusão. Não há garantia lógica de que a maçã seguinte não terá sementes, apesar das muitas maçãs que examinámos até agora. Apesar disso, supomos que o facto de todas as maçãs que examinámos até agora terem sementes torna extremamente razoável que concluamos que todas têm. As premissas, supomos, tornam a verdade da conclusão bastante provável. Se isto é correcto, os argumentos indutivos sólidos também têm a qualidade de preservar a verdade à maneira da máquina das salsichas. Introduzam-se premissas verdadeiras num argumento indutivo sólido e sai provavelmente uma conclusão verdadeira do outro lado.
Uma vez mais, se é a verdade que buscamos, trata-se de um belo resultado.

Stephen Law, The War for Children’s Minds (Londres & Nova Iorque, 2006). Trad. Carlos Marques.

1. Qual o problema tratado no texto?
2. Que comparação é feita? 
3. O que se pretende mostrar com essa comparação?

3 comentários:

Anônimo disse...

Boa noite,

Antes de mais parabéns pelo blog, este tipo de iniciativas são sempre de louvar.

Depois de ler este post, fiquei com uma dúvida:

num argumento dedutivo contabilizamos apenas como verdadeiro ou falso o resultado lógico resultante das duas premissas, ou também o pressuposto científico implícito nesse argumento?

Pegando no exemplo utilizado:

1. Francisco é um homem.
2. Todos os homens vivem na terra.

Conclusão: Francisco vive na terra.

Novo exemplo:

1. O sol é uma estrela que está no céu.

2. Todas as estrelas que estão no céu giram à volta da Terra.

Conclusão: O sol gira à volta da Terra.


Neste caso o pensamento lógico estará correto, mas uma das premissas está errada. Hoje sabemos isso. Agora imaginemos que esta afirmação tinha sido proferida há 500 anos atrás, em suposta "boa fé", e partindo do princípio que ninguém punha em causa a rotatividade do sol à volta da Terra e tomando-a como uma verdade irrefutável e facilmente deduzível a partir da observação diária do nascer e pôr do sol.

Neste caso, e à luz da ciência atual, poderemos considerar este argumento dedutivo como correto?


Obrigado pelo esclarecimento.

Cumprimentos,

César

Anônimo disse...

Apenas gostaria de externar que acompanho o blog, ainda q eu nd tenha a ver com o tema do mesmo e que algumas vezes fique desorientado, aqui do Brasil, e sempre me surpreendo e aprendo. Meus parabens pela força

Helena Serrão disse...

Anónimo 1: A validade dedutiva, estes argumentos são dedutivos, exige que a conclusão se siga das premissas, não exige que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. Assim, pode haver argumentos como aqueles que enunciou que têm uma ou mais premissas falsas, mas que, mesmo assim são dedutivamente válidos, isto é, dadas as premissas, a conclusão segue-se logicamente destas.a validade dedutiva é formal, diz respeito apenas à forma como as premissas são encadeadas com a conclusão e é independente, da verdade das premissas.Não sei se esclareci a dúvida! Obrigada pelo comentário.

Anónimo2: Obrigada pela mesma razão, pela força que os comentários podem dar aos autores deste blogue.