domingo, novembro 15, 2020

A física quântica como causalmente insuficiente mas não aleatória


 Fotograma do filme de 1969 "The arrangement" de Elia Kazan, EUA

 “ Vamos fazer um robô que não tem apenas experiência do livre-arbítrio, tem-no de facto. A tomada consciente de decisão no hiato (intervalo) corresponde a uma realidade da ausência de condições causalmente suficientes para certos tipos de decisões e ações. Como poderíamos fazer esse robô? Bem, a primeira coisa que temos de perguntar é:há algumas partes da natureza onde as causas não sejam causalmente suficientes? Há algumas partes da natureza que não sejam determinísticas? E a resposta é sim. A mecânica quântica não é determinística. Num sistema quântico, podemos prever com probabilidade estatística o que acontecerá, mas não podemos prevê-lo com certeza, porque não temos condições causalmente suficientes. A única parte do Universo que sabemos que é indeterminística é o indeterminismo quântico. Soa estranho dizer que essa é a única parte do Universo, pois, é claro, o Universo como um todo é quântico. Os filósofos falam como se houvesse um pedaço minúsculo, coisas mesmo muitíssimo minúsculas, e que isso é indeterminístico. Mas não, a indeterminação quântica afeta tudo. Em níveis mais elevados, as indeterminações tendem a anular-se, de modo que, no fim, com uma bola de beisebol, por exemplo, podemos prever o seu comportamento como se fosse um sistema newtoniano fixo, porque a probabilidade de se comportar de uma maneira indeterminística é ínfima. Mas é ainda indeterminística. A indeterminação quântica está em todo lado.

Contudo, de que serve tudo isso aos seres humanos? Sempre me pareceu que a indeterminação quântica nada tem que ver com o problema do livre-arbítrio, porque aquilo que a indeterminação nos dá é aleatoriedade, e esta, é claro, não é o mesmo que liberdade. Quando escolhi votar nos democratas, tomei essa decisão no hiato, mas essa não foi uma decisão aleatória. Pressupus que isso não estava fixado por causas anteriores, mas não votei simplesmente de maneira aleatória nos democratas e não nos republicanos. Portanto, o determinismo quântico parecia-me irrelevante para o problema do livre-arbítrio, pois não fornece a liberdade. Fornece apenas aleatoriedade.

Mas, formalmente falando, esse argumento que acabei de apresentar tem uma falácia, e quero explica-la. Há uma falácia comum chamada “falácia da composição”. Trata-se da falácia de supor que se uma característica é verdadeira com respeito aos elementos de um sistema, então é verdadeira com respeito a todo o sistema que é composto desses elementos. Assim. Se digo que os meus neurónios estão a disparar à taxa de 40 hertz, 40 vezes por segundo, seria uma falácia da composição dizer depois que o cérebro como um todo está a disparar à taxa de 40 hertz. É uma falácia de composição dizer” porque no nível quântico a indeterminação implica a aleatoriedade, a indeterminação ao nível mais elevado tem de implicar a aleatoriedade”. Poderíamos ter uma indeterminação quântica que fosse aleatória no nível inferior, mão não no nível mais elevado.”

John R. Searle, Da realidade física à realidade humana, Gradiva, Lx, 2020,pp.289 a 29

 

 

segunda-feira, outubro 26, 2020

Sobre os céticos


Fotograma de " O Ajo Azul" Filme de Joseph Von Sternberg, 1930

 

"Não temos os ouvidos cheios dos perigosos rumores dos factos?", diz o cético, no seu amor pela quietude, como um policial que deve zelar pela segurança pública, "Este não subterrâneo é terrível. Silêncio. Pelo menos uma vez, animais subterrâneos!" Aqui é que o cético, este ser delicado,  amedronta-se facilmente, a sua consciência está pronta a sobressaltar –se a cada não e mesmo a um sim decidido, e experimenta uma espécie de ofensa. Sim e não! — mas isto a seu ver vai contra a moral — contrariamente, gosta de festejar a sua virtude com uma nobre abstenção, por exemplo dizendo com Montaigne: "Que sei eu?" ou, com Sócrates "Sei que não sei nada", ou ainda: "Desconfiei de mim mesmo, nenhuma porta se me abriu aqui" e, "supondo que fosse aberta, porquê entrar depressa?" Ou ainda: "Para que servem as hipóteses apressadas?" Abster-se de todas as hipóteses poderia ser prova de bom gosto. "É necessário endireitar aquilo que é curvo? Ou tapar um buraco com uma estopa qualquer? Não há tempo para isso? E o tempo não tem tempo? Mas sois endiabrados que não quereis ESPERAR? Mesmo o incerto tem seus atrativos, a Esfinge é uma Circe, e Circe também era filósofo." Estes são os consolos do cético e é necessário conceder que deles necessita. O ceticismo é a expressão mais espiritual para um estado fisiológico complicado, que vulgarmente se chama debilidade nervosa e morbidez, e que se manifesta todas as vezes em que raças ou classes longamente divididas entre si se entrecruzam de modo decidido e repentino. Na nova geração que herdou, por assim dizer, diferentes medidas e valores, tudo é inquietude, turbamento, dúvida, tentativa, as melhores forças agem inibidoramente, as próprias virtudes não permitem, reciprocamente, o crescimento e fortalecimento de cada uma delas, falta equilíbrio à alma e ao corpo, força gravitacional e segurança perpendicular. Mas aquele que nasceu de tais raças cruzadas é, antes de mais nada adoentado e degenerado em termos de vontade, ignora a independência que há na resolução, a sensação valorosa, a satisfação do querer, duvidam do "livre arbítrio", até nos seus sonhos. A nossa Europa é, nos nossos dias,teatro de uma tentativa insensatamente repentina de mistura radical de classes e consequentemente de raças e portanto cética, daquele ceticismo móvel que salta impaciente de ramo em ramo, outras vezes sombrio como uma nuvem prenhe de pontos de interrogação e frequentemente mortalmente saciado do próprio querer! Paralisia da vontade — onde não se encontra, na atualidade, esse ser raquítico?! E quantas vezes com que fausto não é visto! E que fausto sedutor! Esta moléstia endossa as mais suntuosas vestes da mentira, e assim, por exemplo, tudo aquilo que é pomposamente tratado, na atualidade, sob o nome de “objetividade”, de “filosofia científica” de “l'art pour l'art”, de “conhecimento puro e independente da vontade”, nada mais é que ceticismo, paralisação da vontade pomposamente apresentada -, asseguro-me o diagnóstico dessa moléstia europeia. A vontade doente difundiu-se de modo desigual na Europa, manifesta-se com mais força e sob os aspetos mais variados onde a cultura se aclimatou há mais tempo e tende a limitar-se na medida em que o "bárbaro" tende a manter — ou a reivindicar — os seus direitos sobre os negligentes vestuários da civilização ocidental.

Nietzsche, Para além do Bem e do Mal, São Paulo HEMUS LIVRARIA, pág 128

quarta-feira, setembro 23, 2020

Poderei ser sábio sem o ser ou sem o julgar ser sou-o de facto? Paradoxo sobre a condição humana ou jogo de palavras?

 


Ouvi-me. Talvez possa parecer a algum de vós que eu esteja gracejando; entretanto, sabei-o bem, eu vos direi toda a verdade. Porque eu, cidadãos atenienses, se conquistei esse nome (o de sábio), foi por alguma sabedoria. Que sabedoria é essa? Aquela que é, talvez propriamente, a sabedoria humana. É, em realidade, arriscado ser sábio nela: mas aqueles de quem falávamos ainda há pouco seriam sábios de uma sabedoria mais que humana, ou não sei que dizer, porque certo não a conheço. Não façais rumor, cidadãos atenienses, não fiqueis contra mim, ainda que vos pareça que eu diga qualquer coisa absurda: pois que não é meu o discurso que estou por dizer, mas refiro-me a outro que é digno de vossa confiança. Apresento-vos, de fato, o deus de Delfos como testemunha de minha sabedoria, se eu a tivesse, e qualquer que fosse. Conheceis bem Xenofonte. Era meu amigo desde jovem, também amigo do vosso partido democrático, e participou de vosso exílio e convosco repatriou-se. E sabeis também como era Xenofonte, veemente em tudo aquilo que empreendesse. Uma vez, de fato, indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo a respeito disso e - não façais rumor, por isso que digo - perguntou-lhe, pois, se havia alguém mais sábio que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. E a testemunha disso é seu irmão, que aqui está.



(…)

Em verdade, ouvindo isso, pensei: que queria dizer o deus e qual é o sentido de suas palavras obscuras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco: o que quer dizer, pois, afirmando que sou o mais sábio? Certo não mente, não é possível. E fiquei por muito tempo em dúvida sobre o que pudesse dizer; depois de grande fadiga resolvi buscar a significação do seguinte modo: Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio dele, sem dúvida, o oráculo, e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: Este é mais sábio que eu, enquanto tu dizias que eu sou o mais sábio. Examinando esse tal: - não importa o nome, mas era, cidadãos atenienses, um dos políticos, este de quem eu experimentava essa impressão. - e falando com ele, afigurou-se-me que esse homem parecia sábio a muitos outros e principalmente a si mesmo, mas não era sábio. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí me veio o ódio dele e de muitos dos presentes. Então, pus-me a considerar, de mim para mim, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, ao contrário, nenhum de nós sabe nada de belo e bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la.

Platão, Apologia de Sócrates, 6d

segunda-feira, setembro 14, 2020

BOM ANO PARA TODOS!!


 

quinta-feira, julho 09, 2020

segunda-feira, junho 22, 2020

Copiar sem mencionar o autor?

Este reino da Internet não tem lei de autoria, vale tudo,  mas não podemos deixar de ripostar. É um imperativo. Contra a atitude que copia, leva e coloca nos seus espaços internéticos material que é feito por outros sem mencionar qualquer autoria. Todos os materiais implicam horas de trabalho e trabalho é dinheiro. Podem levar tudo o que quiserem, ainda bem que gostaram! Até fico orgulhosa, admito!  Mas têm que mencionar o autor do trabalho, por respeito às horas passadas a produzir o que está à distância do botão.

Assim é só uma forma de roubar sem ir parar à prisão!

O meu diapositivo da ética deontológica versus ética utilitarista aparece num site brasileiro (não menciono para não fazer publicidade ) assim como que saído das mãozinhas do senhor, que nada fez senão copiar e colar!!

Colocar o nome no diapositivo não adianta porque  continuam a ser editáveis pelo Slideshare.
Também não vou perder o meu precioso tempo com estas cangalhadas de trancar isto ou aquilo.


Mas está mal meus senhores! Haja decência!


sábado, junho 20, 2020

Leibniz, em defesa de Deus



 Marc Chagall, O pecado original, 1960

Leibniz (na Teodiceia)  encarregou-se  de defender um Criador acusado de crimes sem paralelo. A sua defesa reside em dois pontos. O primeiro é que o acusado não podia ter agido de outra forma. Como qualquer outro agente, estava limitado às possibilidades que tinha à Sua disposição. O outro ponto invoca o argumento de todas as ações do Criador acontecerem para o melhor, de facto. Uma parte da defesa é uma investigação às causas das ações do acusado, enquanto a outra tem a ver com a verdadeira natureza das suas consequências no mundo. É aqui que as teses de Leibniz parecem não só anteriores à experiência, mas nitidamente imunes a ela. Para esse efeito, deixa bem claro que qualquer facto, por horrível que seja, é compatível com a tese de este mundo  ser o melhor dos mundos possíveis. A afirmação de Leibniz não é uma teoria sobre a bondade deste mundo; diz-nos simplesmente que nenhum outro mundo teria sido melhor. Aqueles que tentaram contradizê-lo terão como resposta que não sabem o suficiente para o fazer, o que será certamente verdade. (…)
A defesa da justiça divina feita por Leibniz depende da divisão de toda a nossa aflição em mal metafísico, natural e moral. Será esta classificação, associada à hipótese de haver uma relação causal entre aqueles males, que nos parecerá violentamente necessitada de defesa. Para Leibniz, o mal metafísico é uma degeneração inerente ao limite da(s) substância(s) de que o mundo é feito. O mal natural é a dor e o sofrimento que sentimos nele. O mal moral é o crime pelo qual o mar natural é a punição inevitável. A suposição de o mal moral e natural terem uma relação de causa efeito nunca foi sujeita por Leibniz a uma pesquisa minuciosa. (…)
Há muito tempo, a vida era como devia ser. A terra era um jardim onde tudo era bom. A fome era saciada sem esforço; as crianças nasciam sem dor. Não conhecíamos morte, nem vergonha, nem ruína. Se tivéssemos de conceber um mundo, não o faríamos assim?
Se as coisas deviam ser desta maneira, alguma coisa deve explicar como elas são. A ideia de que o problema foi causado pelos pecados dos nossos antepassados não depende do que eles fizeram. Lamentarmos que provar o tipo errado de fruta tenha sido suficiente para uma sentença de morte pender sobre a cabeça de todos os descendentes, é falhar a questão filosófica essencial, e as tentativas cristãs de fazer aquela ação parecer pior do que foi, são vãs. Uma coisa trivial parece a explicação mais apropriada. O que conta, em primeiro lugar, não e a justiça da relação entre o que eles fizeram e o que sofreram, mas se deve haver alguma relação. Porque acontecem as coisas más? Porque se fizeram as coisas más? Mais vale ter alguma explicação causal do que permanecer no escuro. Relacionar o pecado com o sofrimento é separar os males do mundo em males morais e naturais,  e criar desse modo um contexto para perceber as atribulações humanas.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, Lx, 2005, p.37 e 38

segunda-feira, junho 08, 2020

A Fé sendo o oposto da razão é a mais alta das virtudes humanas - Kierkegaard



Sacrifício de Isaac, Caravaggio, (1590-1610)


E é assim de facto. Acaso o espírito da mesquinha burguesia que observo na vida e que não julgo pelas minhas palavras, mas pelos meus atos, não será realmente o que parece? E será ela o verdadeiro prodígio? Podemos admiti-lo, porque o nosso herói da fé oferecia uma flagrante semelhança com esse espírito; não se tratava de um humorista nem de um ironista, mas de alguma coisa de muito diferente. Em nossos dias fala-se demasiado de ironia e de humor, sobretudo aquelas pessoas que não conseguiram nunca fazer nada, mas que, apesar disso sabem explicar tudo. Pessoalmente não desconheço essas duas paixões, sei um pouco mais acerca delas do que se diz nas coleções alemãs e germano-dinamarquesas. Sei, por consequência, que são essencialmente diferentes da paixão da fé. A ironia e o humor refletem-se sobre si próprios e pertencem, por isso, à esfera da resignação infinita; encontram seus motivos no fato de o indivíduo ser incomensurável com a realidade.
Apesar do mais vivo desejo, não posso efetuar o último, o paradoxal movimento da fé, quer ele seja dever ou outra coisa. Tem alguém o direito de afirmar que pode fazê-lo? Cabe-lhe a ele decidir; é um assunto entre ele e o ser eterno, objeto da fé, saber se pode, a esse respeito, acomodar-se. O que está ao alcance de qualquer homem é o movimento da resignação infinita e, pela minha parte, não hesitaria em acusar de covardia quem quer que se julgasse incapaz de o realizar. Porém, em relação à fé, já é outra questão. Não é permitido a ninguém fazer acreditar aos outros que a fé tem pouca importância ou é coisa fácil, quando é, pelo contrário, a maior e a mais penosa de todas as coisas.
A história de Abraão é interpretada de outra maneira. Celebra-se a graça de Deus que outorgou Isaac pela segunda vez; em toda a história não se vê senão uma prova. Uma prova: é dizer muito e pouco: e, no entanto, passou-se em menos tempo do que leva a contá-lo. Cavalga-se no Pégaso e, num abrir e fechar de olhos, está-se em Morija, avista-se o cordeiro; esquece-se de que Abraão fez a caminhada ao passo lento do seu burro, que levou três dias de viagem e que lhe foi necessário um pouco de tempo para acender o fogo, ligar Isaac e afiar a faca.
No entanto, faz-se o elogio de Abraão. O pregador pode dormir sossegado até o último quarto de hora que antecede o seu discurso, e o auditório pode adormecer escutando-o, porque, de um lado e de outro, tudo se passa sem dificuldades nem inconvenientes. Mas, se há na assembleia um homem atingido de insónia, talvez regresse a casa e, sentando-se no seu canto, pense: Tudo isso se resume num momento; espera apenas um minuto, verás o cordeiro e a prova terá terminado. Se o orador o surpreende nesta disposição, imagino que vai avançar para ele, muito digno, para invectivá-lo: Miserável! Como podes abandonar a tua alma a tal loucura! Não há milagre algum e toda a vida é uma prova!, e à medida que vai falando, inflama-se, sente-se cada vez mais contente consigo mesmo; e de tal maneira que, se durante o sermão sobre Abraão não se congestionara, sente agora incharem-lhe as veias da testa. E talvez acabe mesmo por perder o fôlego e a palavra, se o pecador lhe responder com tranquila dignidade: Olha que eu queria pôr em prática o teu sermão de domingo passado.
Ou nos é necessário eliminar de uma vez a história de Abraão, ou então temos que compreender o espantoso e inaudito paradoxo que dá sentido à sua vida, para que possamos entender que o nosso tempo pode ser feliz como qualquer outro, se possuir a fé. Se Abraão não é um zero, um fantasma, um personagem de opereta, o pecador nunca será culpado de tentar imitá-lo; mas convém reconhecer a grandeza da sua conduta para ajuizar se tem a vocação e a coragem de afrontar uma prova semelhante. A única contradição do pregador consiste em que faz de Abraão um personagem insignificante, ao mesmo tempo em que exorta a tomá-lo como exemplo.
Urge então abster-nos de pregar acerca de Abraão. Creio, no entanto, que não. Se porventura tivesse que falar sobre ele, pintaria antes de mais a dor da prova. Para terminar, sorveria como sanguessuga toda a angústia, toda a miséria e todo o martírio do sofrimento paternal para apresentar o de Abraão, fazendo notar que, no meio das suas aflições, ele continuava a crer. Recordaria que a viagem durou três dias e ainda uma boa parte do seguinte; e mesmo esses três dias e meio duraram infinitamente mais tempo que os milhares de anos que me separam do patriarca. Chegado a esse ponto, lembraria que, segundo a minha opinião, todos podem dar meia volta antes de subir a Morija, que todos podem a cada momento arrepender-se da decisão e voltar para trás. Agindo desta maneira, não corro nenhum perigo nem receio, sequer, de despertar em alguns o desejo de sofrerem a prova tal como Abraão. Mas, se alguém quer introduzir uma edição popular de Abraão convidando todos a imitá-lo, cai no ridículo.
É agora meu propósito extrair da sua história, sob forma problemática, a dialética que comporta para ver que inaudito paradoxo é a fé, paradoxo capaz de fazer de um crime um ato santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão.

 Tradução de Maria José Marinho

Soren Kierkegaard, Temor e tremor,, Guimarães Editores, Lx, 1959, p.91 a 95.

segunda-feira, junho 01, 2020

O direito natural corresponde ao que a vontade geral deseja


Eugène Delacroix, A liberdade guiando o povo (1830)

Se, pois, meditardes atentamente em tudo o que antes foi dito, ficareis convencidos de que: 1º o homem que escuta tão-só a vontade particular é inimigo do género humano; 2º a vontade geral é, em cada indivíduo, um acto puro do entendimento que, no silêncio das paixões, raciocina sobre o que o homem pode exigir do seu semelhante, e sobre o que o seu semelhante tem o direito de dele exigir; 3º esta consideração da vontade geral da espécie e do desejo comum é a regra da conduta relativa à reciprocidade entre particulares na mesma sociedade, de um particular para com a sociedade de que é membro, e da sociedade, de que é membro, para com todas as outras sociedades; 4º a submissão à vontade geral é o laço que une todas as sociedades, sem dele exceptuar as que são formadas pelo crime. Ah! A virtude é tão bela que até os ladrões respeitam a sua imagem no fundo das suas cavernas. 5º as leis devem ser feitas para todos e não apenas para um; caso contrário, este ser solitário seria semelhante ao argumentador violento, que remetemos ao silêncio no parágrafo 5;  6º uma vez que, das duas vontades, uma geral e outra particular, a vontade geral nunca erra, não é difícil ver a qual delas, para a felicidade do género humano, deverá pertencer o poder legislativo, e que veneração se há-de prestar aos mortais respeitáveis cuja vontade particular coincide com a autoridade e a infalibilidade da vontade geral; 7º mesmo que imaginássemos a noção das espécies num fluxo perpétuo, a natureza do direito natural não mudaria, porque diria sempre respeito à vontade geral e ao  desejo comum de toda a espécie; 8º a equidade está para a justiça como a causa para o efeito, ou seja, a justiça só pode ser a equidade explícita; 9º por fim, todas estas consequências são evidentes para quem raciocina, e quem não o quiser fazer, renunciando à qualidade de homem, deve ser tratado como um ser desnaturado.

Diderot, Direito natural, Artigo da Enciclopédia (1751-1765)

sábado, maio 23, 2020

Exames 2019/20

Fotografia Leonard Freed

Novas informações do IAVE sobre os exames nacionais, a ver AQUI

sábado, maio 09, 2020

Antígona, um conflito não superável




Benjamin-Constant,1845/1902, Antígona

" CORO: Há coisas prodígiosas, mas nenhuma como o homem. Ele, que ajudado pelo tempestuoso vento sul, chega ao outro extremo do espumante mar, atravessando-o, apesar das ondas que rugem descomunais; ele, que fatiga a sublime, divina e inesgotável terra, com o vaivém do arado puxado por mulas e, ano atrás de ano, a vai sulcando; ele, que com armadilhas, captura os inocentes pássaros e aprisiona os animais selvagens, e, com as malhas de entrelaçadas redes, colhe os peixes que vivem no mar; o engenhoso homem que, com a habilidade, domina o selvagem animal montês; que sabe subjugar o cavalo de abundantes crinas e o infatigável touro da serra; o homem que, por si próprio, aprendeu a falar e tem pensamentos rápidos como o vento, e criou em si um carácter que regula a vida em sociedade, e aprendeu a fugir das implacáveis intempéries, com seus dardos de chuva e de neve; o homem que possui recursos para todos os males, pois, sem recursos, não se aventuraria a encarar o futuro; apesar de tudo isto, não conseguiu evitar a morte, embora arranjasse formas de combater as enfermidades inevitáveis. Quanto ao seu poder inventivo, logrou conhecimentos técnicos que superam o inesperado; mas algumas vezes os encaminha para o mal e, outras vezes, para o bem.
Se respeita os usos e costumes locais e a justiça confirmada por divinos juramentos, consegue chegar ao cimo da cidadania;  mas o que ousadamente se deleita no erro, perde os direitos de cidadão; esse não poderá sentar-se à minha mesa, pois, quem assim procede, não pensa como eu. (...)

CREONTE: -Mas tu, dize-me sem rodeios; sabias que te era vedado, por um édito, fazer o que fizeste?
ANTÍGONA - Sim, sabia-o bem. Como poderia ignorá-lo se toda a gente o sabe?
CREONTE - E, apesar disso,atraveste-te a passar por cima da lei?
ANTÍGONA - Não foi Zeus que ditou esse decreto; nem Dice companheira dos deuses subterrâneos, estabeleceu tais leis para os homens. E não creio que os teus decretos tenham tanto poder que permitam a alguém saltar por cima das leis, não escritas mas imutáveis, dos deuses; a sua vigência não é nem de hoje nem de ontem, mas de sempre e ninguém sabe como e quando apareceram. Não iria atrair o castigo dos deuses, por medo das determinações dos mortais; só via na minha frente o morto, sem cuidar do que decretaste. E, se morrer agora, lucrarei com isso, pois quem, como eu, vive entre tantos males, ganha com a morte. Só encaro como desgraça ficar insepulto um filho de minha mãe e eu consentir: isso sim! é que me seria doloroso. Pode parecer-te que procedi como uma louca, mas é quase a um louco que dou conta da minha loucura."

Terá o homem, considerado nos seus direitos indivíduais  enquanto ser ético, ter razão quando transgride a lei do estado? Poderemos confiar na resposta política que ANTÍGONA usa como recurso forte contra CREONTE, que não são os humanos que podem decidir o que é justo ou injusto mas há uma lei ancestral que está acima da lei humana? Teremos de obedecer à lei do estado quando este é governado por um tirano? Quando a lei dos homensnão reconhece a lei ancestral e a pisa?  A questão continua a ser actual e reporta-nos para a questão deontológica. A qual lei deve ater-se a ação? Poderá a atitude de ANTÍGONA ter valor moral? Nada na personagem evoca a moral, evoca leis antigas, leis divinas, leis familiares, leis de sangue. Antígona resume-as na célebre resposta a CREONTE: "Não nasci para odiar mas para amar". O conflito de ANTÍGONA não é um conflito moral é uma questão de fidelidade aos que ama, poderemos modernizá-lo como um dilema moral que a personagem não tem, nenhuma das personagens tem conflito com a sua consciência moral, não estão psicologicamente divididos, a peça representa a condição do homem e a inevitabilidade trágica dessa condição. Neste aspeto, não há dilemas morais, embora nós o possamos entender como tal ao avaliarmos a situação para lhe tentar encontrar uma solução que ela não tem, nem terá. HS

Sófocles, Antígona, Tradução,António Manuel Couto Viana, pág.21,Verbo,s.d

domingo, abril 26, 2020

dia 26 de abril de 2020

Ontem, no meu bairro, que é uma urbanização em betão com altura consistente e casas paralelipipedos basicamente recentes e iguais, (para não imaginarem conjuntos de casas antigas com lojas de rua e vielas inclinadas),alguém colocou na sua varanda  uma folha A4  escrita com letra preta, à distância do braço de quem passava; " Sirva-se!Estamos fechados em casa mas somos solidários com quem quer festejar o 25 de Abril!"  depois havia uma fila de cravos vermelhos colados à balaustrada da varanda. Aproveitar do rés do chão, em geral  mau, esta súbita vantagem de  ser próximo de quem passa.
Depois, romanticamente, confirmei a transformação do betão em lar de gente viva, embora ninguém assomasse à janela, não fazia ideia se era homem, mulher, casal, sozinho, velho,novo, não interessa , a mensagem aproximou-nos como se fossemos familiares sem nos conhecermos, assim, acho que o 25 de Abril voltou a acontecer, da melhor maneira possível.HS

segunda-feira, abril 13, 2020

Andrey, what is art?