Julian Baggini, Peter Fosl, The Philosopher’s Toolkit (London)
Tradução de Carlos Marques
Um blogue de Filosofia para professores e alunos, filósofos e não-filósofos.
Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, Lisboa, FCG, 2001, p.174
A causalidade como categoria ou conceito puro que torna possível o entendimento das coisas que são dadas na intuição adequa-se melhor como explicação do que aquela que David Hume dá, sobre a causalidade como projeção da mente que cria uma ilusão a partir da conjunção constante entre objetos. mas há objetos que nos aparecem em conjunção constante e que não nos conduzem à relação de causalidade entre um e outro. Reid aponta o exemplo do dia e da noite, poderíamos dar outros exemplos, o sono e o sonho, não entendemos o sono como causa do sonho, atribuímos ao sonho outras causas psicológicas que não necessariamente o sono. Se a mente projeta a partir dos acontecimentos repetidos impulsionada pelo hábito, porque não o faz sempre? Porque racionalmente não encontra forma de explicar um pelo outro.
"Se procurarmos a origem da ideia de causa, diz Hume, descobriremos que ela não pode ser uma qualidade particular inerente aos objetos; porque objetos dos mais variados tipos podem ser causas e efeitos. O que temos de procurar são relações entre objetos. De facto, descobrimos que as causas e os efeitos têm de ser contíguos entre si, e que as causas têm de ser anteriores aos seus efeitos. Mas isto não é suficiente; achamos ainda que tem de haver uma conexão necessária entre causa e efeito, embora a natureza desta conexão seja difícil de estabelecer. Hume nega que tenha de haver uma causa para a existência de tudo aquilo que começa a existir. Sendo todas as ideias distintas separáveis umas das outras, e sendo as ideias de causa e efeito evidentemente distintas, é fácil concebermos um objeto como não existente neste momento, e existente no momento seguinte, sem lhe juntarmos a ideia distinta de uma causa ou de um princípio produtivo. É evidente que «causa» e «efeito» são termos correlativos, como o são «marido» e «mulher», e que todo o efeito tem de ter uma causa, da mesma maneira que todo o marido tem de ter uma mulher. Mas isto não prova que todos os acontecimentos tenham de ter uma causa, da mesma maneira que, do facto de todos os maridos terem de ter uma mulher, não se segue que todos os homens tenham de ter uma mulher. Tanto quanto sabemos, pode haver acontecimentos sem causas, tal como existem homens que não têm mulher. Se não há qualquer absurdo em conceber que algo venha à existência ou seja sujeito a alterações sem uma causa, não há, a fortiori, qualquer absurdo em conceber que um acontecimento ocorra sem um tipo particular de causa. Sendo logicamente concebível que muitos efeitos diferentes resultem de uma causa particular, só a experiência pode levar-nos a esperar o efeito real. Mas com base em quê? O que acontece, afirma Hume, é que observamos que indivíduos pertencentes a uma espécie são constantemente acompanhados por indivíduos pertencentes a outra. «A contiguidade e a sucessão não são suficientes para nos levarem a declarar que quaisquer dois objetos são causa e efeito, a não ser que observemos que estas duas relações são preservadas em diversos exemplos». Mas de que forma nos faz isto progredir? Se a relação causal não pode ser detetada num só exemplo, como pode ela ser detetada em diversos exemplos, se todos os exemplos semelhantes são independentes uns dos outros e não se influenciam uns aos outros? A resposta de Hume é que a observação da semelhança produz uma nova impressão na mente. Tendo nós observado que um número suficiente de casos de B se seguem a A, sentimos uma determinação da mente em passar de A para B. É aqui que descobrimos a origem da ideia de conexão necessária. A necessidade «mais não é do que uma impressão interna da mente, ou uma determinação para levarmos os nossos pensamentos de um objeto para outro». A impressão da qual deriva a ideia de conexão necessária é a expectativa do efeito quando a causa se apresenta, expectativa essa que constitui uma impressão produzida pela conjunção habitual de ambos. Por muito paradoxal que possa parecer, não é a nossa inferência que depende da conexão necessária entre causa e efeito, mas é a conexão necessária que depende da inferência que retiramos de uma para a outra. Hume oferece-nos, não uma, mas duas definições de causalidade. A primeira é a seguinte: uma causa é «um objeto precedente e contíguo a outro, sendo todos os objetos semelhantes ao primeiro colocados numa relação de semelhança e contiguidade com os objetos que se assemelham ao segundo». Nesta definição, nada se diz acerca da conexão necessária, e não é feita qualquer referência à atividade da mente. Assim sendo, é-nos apresentada uma segunda definição, mais filosófica que a primeira. Uma causa é «um objeto precedente e contíguo a outro, e de tal maneira unido a ele na imaginação que a ideia de um determina a mente a formar a ideia do outro, e a impressão de um outro.”
Anthony Kenny, História
Concisa da Filosofia Ocidental,
REVISÃO CIENTÍFICA Desidério Murcho, Sociedade Portuguesa de Filosofia
Bruce Davidson, rapariga segurando gato, 1947
Não há razão alguma para se estudar filosofia — afirma Hume — salvo a de que, para certos temperamentos, é esta uma maneira agradável de passar o tempo. «Em todos os incidentes da vida, deveríamos, não obstante, conservar o nosso ceticismo. Se acreditamos que o fogo aquece ou que a água refresca, isto é só porque nos dá muito trabalho pensar de outra maneira. Mais ainda: se somos filósofos, deveríamos sê-lo baseados unicamente nestes princípios céticos, e pela inclinação que sentimos no sentido de dedicar-nos a isso.» Se ele abandonasse a especulação, «sinto que eu sairia perdendo quanto ao prazer; e nisto está a origem de minha filosofia».
A filosofia de Hume, verdadeira ou falsa, é a falência da racionalidade do século XVIII. Como Locke, começa com a intenção de ser sensorial e empírico, sem confiar em nada, mas procurando toda o conhecimento que lhe fosse possível obter por experiência e observação. Mas, possuidor de um intelecto melhor que o de Locke, um poder mais agudo de análise e uma menor capacidade em aceitar inconsistências cómodas, chega à desastrosa conclusão de que experiência e a observação nada ensinam. A crença racional não existe: «Se acreditamos que o fogo aquece ou que a água refresca, isto é só porque nos custa muito trabalho pensar de outra maneira.» Não podemos deixar de crer, mas nenhuma crença pode basear-se na razão. Tampouco uma linha de conduta pode ser mais razoável que outra, já que todas elas são, igualmente, baseadas em convicções irracionais. (…)
Era inevitável que tal refutação da racionalidade fosse seguida de uma grande erupção de fé irracional. A disputa entre Hume e Rousseau é simbólica: Rousseau era louco, mas influente; Hume era são, mas não tinha adeptos. Os empiristas britânicos rejeitaram-lhe o ceticismo sem refutá-lo; Rousseau e seus adeptos concordavam com Hume em que nenhuma crença se baseia na razão, mas consideravam o coração superior à razão permitindo que este os levasse a convicções muito diferentes das que Hume conservava na prática. Os filósofos alemães, de Kant a Hegel, não assimilaram os argumentos de Hume. Digo-o deliberadamente, apesar da crença que muitos filósofos partilham com Kant, de que a sua Crítica da Razão Pura era uma resposta a Hume. Na verdade, estes filósofos — pelo menos Kant e Hegel — representam um tipo de racionalismo “pré-humeano” e podem ser refutados com argumentos “humeanos”. Os filósofos que não podem ser refutados desta maneira são aqueles que não pretendem ser racionais, tais como Rousseau, Schopenhauer e Nietzsche. O desenvolvimento do irracional durante o século XIX e o que passou para o século XX é uma consequência natural da destruição, por Hume, do empirismo.
Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental (1946), Lx, Relógio D'Água (2017), p.550,551
Sob a influência da psicologia moderna e das doutrinas pragmáticas, a pedagogia tornou-se uma ciência do ensino em geral ao ponto de se desligar completamente da matéria a ensinar. O professor – assim nos é explicado – é aquele que é capaz de ensinar qualquer coisa. A formação que recebe é em ensino e não no domínio de um assunto particular. (…) Porque o professor não tem necessidade de conhecer a sua própria disciplina, acontece frequentemente que ele sabe pouco mais do que os alunos. O que daqui decorre é que, não somente os alunos são abandonados aos seus próprios meios, como ao professor é retirada a fonte legítima da sua autoridade enquanto professor. Pense-se o que se pensar, o professor é ainda aquele que sabe mais e é mais competente. Em consequência, o professor não autoritário, aquele que contando com a autoridade que a sua competência lhe poderia conferir, quereria abster-se de todo o autoritarismo, deixa de poder existir.
Foi uma moderna teoria da aprendizagem que permitiu à
pedagogia e às escolas normais desempenhar esse pernicioso papel na atual crise
da educação. Essa teoria é, muito simplesmente, a aplicação lógica da nossa
terceira ideia-base, ideia que foi durante séculos sustentada no mundo moderno
e que encontrou a sua expressão conceptual sistemática no pragmatismo. Essa
ideia-base é a de que não se pode saber e compreender senão aquilo que se faz
por si próprio.
A aplicação à educação desta ideia é tão primitiva quanto
evidente: substituir, tanto quanto possível, o aprender pelo fazer. Considera-se
pouco importante que o professor domine a sua disciplina porque se pretende
compelir o professor ao exercício de uma atividade de constante aprendizagem
para que, como se diz, não transmita um “saber morto” mas, ao contrário,
demonstre constantemente esse saber. A intenção confessada não é de ensinar um
saber mas a de inculcar um saber-fazer. (…)
Considera-se o jogo como o mais vivo modo de expressão e a
maneira mais apropriada para a criança se conduzir no mundo, a única atividade
que brota espontaneamente da sua existência de criança. Só aquilo que pode
aprender através do jogo corresponde à sua vivacidade. Aprender, no velho
sentido da palavra, forçando a criança a adotar uma atitude de passividade,
obrigá-la-ia a abandonar a sua própria iniciativa que não se manifesta senão no
jogo.
O ensino das línguas ilustra diretamente a estreita ligação
entre estes dois pontos: a substituição do aprender pelo fazer e do trabalho
pelo jogo. A criança deve aprender falando, quer dizer, fazendo, e não pelo
estudo da gramática e da sintaxe. (…) é perfeitamente claro que este método
procura deliberadamente manter a criança mais velha, tanto quanto possível, num
nível infantil. Aquilo que, precisamente, deveria preparar a criança para o
mundo dos adultos, o hábito adquirido pouco a pouco de trabalhar em vez de
jogar, é suprimido em favor da autonomia do mundo da infância.
Qualquer que seja a ligação existente entre o fazer e o saber,
ou qualquer que seja a validade da fórmula pragmática, a sua aplicação à
educação, isto é, ao modo como a criança aprende, tende a fazer da infância um
mundo absoluto. Também aqui, sob pretexto de respeitar a independência da
criança, ela é excluída do mundo dos adultos para ser artificialmente mantida
no seu, tanto quanto este pode ser designado um mundo.”
Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro (1954/1968), A
Crise na educação, Lx, Relógio D’Água, 2006, p.192,193,194.
«The crisis in Education» foi pela primeira vez publicado na
Partisan Review, 25, 4 (1957),
Arendt escreveu este texto em 1957 na América, eu comecei a
dar aulas trinta anos depois. Será atual? As inovações em educação são um
contínuo rio que nela desagua, atualidade na era da internet é uma submersão,
tão pouco a podemos entender como tal, as chamadas "tecnologias digitais" , o rio que corre, sempre no momento seguinte, são também exemplo perfeito desta filosofia pragmática
do jogo na aprendizagem, do fazer autónomo dos alunos. Mas será essa
autonomia verdadeiramente desenvolvida com este tipo de pedagogia? Refiro-me aos programas digitais, com tutoriais de aprendizagem onde os alunos vão passando etapas até ao resultado final, como se jogassem um jogo de Geografia ou de outra disciplina. No jornal Expresso, desta sexta, dia 10
de Novembro, havia um artigo sobre ocorrências recentes no ensino universitário. Os professores universitários queixavam-se de receber
comunicações dos pais dos alunos a exigirem explicação pelas notas dos seus
filhos, como se ainda fossem os responsáveis pela educação de homens e mulheres
de 20 anos. Infantilização. Sabe-se também que os alunos não prestam atenção
nas aulas e que os computadores sempre acesos são muitas vezes um bom pretexto para estar a
jogar enquanto o professor ensina. Como professora do ensino secundário
defronto-me com esse problema mas, vamos… os alunos
são obrigados a estar nas aulas, são adolescentes... mas a metáfora do rio está de novo a adaptar-se aqui, deixamos fluir, e os alunos transportam os mesmos comportamentos de indisciplina, e de desinteresse para todo o lado onde se deparem com algo mais difícil ou "secante". Se nunca proibirmos esses comportamentos, consentimos, e se consentimos agora, esses procedimentos instalam-se, mesmo quando os alunos são adultos, continuando nesse estado de permissividade da iniciativa
infantil que, em jovens adultos, é anacrónica e contraproducente. HS
Foram as guerras e as revoluções, e não o funcionamento dos
governos parlamentares e dos aparelhos dos partidos democráticos, que moldaram
as experiências políticas fundamentais do século XX. Ignorá-las equivale a não
vivermos no mundo em que de facto vivemos. (…) O que as guerras e as revoluções
têm em comum é o facto de estarem sob o signo da força bruta. Se as guerras e
as revoluções são as experiências políticas fundamentais do nosso tempo, tal
significa que estamos a mover-nos essencialmente sobre um terreno de experiência
violenta que nos impele a equacionarmos violentamente a ação política. Este
modo de equacionar as coisas pode revelar-se fatal, porque nas condições
presentes a única conclusão possível é que a ação política se torna sem
sentido, o que não deixa de ser bem compreensível dado o enorme papel que a
violência desempenhou efetivamente na história de todos os povos. (…) Se uma
ação política que não se coloca sob o signo da força bruta não alcança os seus
fins – como na realidade acontece sempre -, isso não torna a ação política nem
infundada nem sem sentido. Não passa a ser infundada porque nunca visou um
fundo, quer dizer um fim, mas se orientou apenas para objetivos, com maior ou
menor sucesso; e não passa a ser sem sentido porque no vaivém do discurso que
se troca entre indivíduos e povos, entre Estados e nações, começa por ser
criado um espaço em que tudo o mais tem lugar. Aquilo que em linguagem política
se chama “um corte de relações” é o abandono desse espaço-entre, que toda a
ação violenta começa por destruir antes de empreender a aniquilação daqueles
que vivem nas suas margens.
Hannah Arendt, A promessa da política, retirado de “The Literary
Trust of Hannah Arendt and Jerome Kohn” (2005), Relógio D’Água, Lx, 2007, p.159, 160 e 161
Este é o século XXI e a sensação é a mesma. A história caminha para o abismo. A força bruta cresce na proporção direta da descrença no diálogo, nesse espaço político comum entre nações; a política. A política pode negociar situações pacíficas porque se gera, alimenta e respira no espaço comum, o espaço humano, onde toda a diversidade humana está incluída, independentemente da etnia ou religião ou partido, esse espaço-entre. O seu reconhecimento por parte das nações/Estados que se digladiam e a necessidade marcante de renovação e de verdadeira ação, poderiam ser uma luz ao fundo do túnel. Guterres ontem tentou dizer que a força bruta surge da desesperança, pela falta de reconhecimento da humanidade do outro, perpetrando sobre ele toda a espécie de humilhações (Israel sobre a Palestina). Como representante das Nações Unidas, deve ter um olhar sobre a história, reconhecer essas humilhações sistemáticas e consentidas pelo Ocidente.HS
Mãe e filho
Somos todos sonhadores; não sabemos quem somos.
Alguma máquina nos criou; a máquina do mundo, a constritiva família.
Então, de volta ao mundo, polidos por suaves chicotes.
Sonhamos; não lembramos.
A máquina da família: pelagem negra,
florestas do corpo materno.
A máquina da mãe: a cidade branca
dentro dela.
E antes disso: terra e água.
Musgo entre as pedras, pedaços de folha e grama.
E antes, células numa imensa escuridão.
E antes disso, o mundo velado.
É por isto que você nasceu: para me calar.
Células de minha mãe e de que pai, é a sua vez
de ser fundamental, de se tornar uma obra-prima.
Eu improvisei; eu nunca me lembro de nada.
Agora é a sua vez de se deixar guiar;
é você quem exige saber:
Por que sofro? Por que sou ignorante?
Células numa imensa escuridão. Alguma máquina nos criou;
é a sua vez de se dirigir a ela, de perguntar
qual é meu propósito? Qual é meu propósito?
Tradução de Pedro Gonzaga
A editora Relógio D'Água, tem traduções de Inês Dias (Averno); Ana Luísa Amaral ( A Íris Selvagem); margarida Vale de Gato (Noite virtuosa e fiel)
Uma tarde, próxima do fim do primeiro verão, indo eu buscar
ao povoado um sapato que havia mandado consertar, fui apanhado e metido na
cadeia, porque, (…) não pagara impostos ao Estado, deixando assim de reconhecer
a autoridade de uma instituição que, à porta do Senado, compra e vende homens,
mulheres e crianças como se fossem reses. Tinha-me retirado nos bosques com
outros objetivos. Mas, onde quer que um homem vá o grupo há de segui-lo e agarrá-lo
com as suas sórdidas instituições e, se possível, constrange-lo a tomar parte
na desesperada sociedade de Odd Fellows
(Sociedade de auxílio mútuo com fins educacionais e piedosos, fundada na
Inglaterra do século XVIII). É bem verdade que eu podia ter resistido à força,
com maior ou menor resultado, podia ter-me enfurecido contra a sociedade; mas
preferi que a sociedade se enfurecesse contra mim, por ser ela a parte desesperada.
Entretanto, fui libertado no dia seguinte, apanhei o sapato já consertado e
regressei aos bosques a tempo de colher o meu jantar de mirtilos na colina de
Fair Haven. Nunca fui aborrecido por ninguém a não ser por pessoas que
representam o Estado. Não tinha fechadura nem ferrolho, salvo na gaveta onde
guardava os meus papéis, nem sequer dispunha de um prego para pôr no trinco ou
nas janelas. Nunca fechei a porta de dia ou de noite, ainda que fosse
ausentar-me durante vários dias, nem mesmo quando no Outono seguinte fui passar
duas semanas aos bosques do Maine. E, contudo, a minha casa era mais respeitada
do que se tivesse sido cercada por um pelotão de soldados. O andarilho fatigado
podia repousar e aquecer-se à minha lareira, o literato entreter-se com os
pucos livros em cima da mesa, e o curioso, ao abrir a porta do armário na parede,
ver o que havia sobrado do almoço e o que eu pretendia cear. No entanto, embora
muita gente de todas as classes seguisse por este caminho rumo ao lago, não
sofri, por isso, nenhum inconveniente sério e nunca perdi nada, exceto um
pequeno livro, um volume de Homero talvez impropriamente dourado, que espero
tenha entretanto sido encontrado por um soldado do nosso acampamento. Se todos
os homens vivessem tão simplesmente como eu naquele tempo, estou convencido de
que não haveria roubos e assaltos. Estes só ocorrem nas comunidades em que
alguns têm mais do que é suficiente enquanto outros não têm o necessário. Os
Homeros de Pope (Pope, poeta do século XVIII tradutor de Homero) logo se
distribuiriam de maneira equitativa:
“Aos homens nem molestaram as guerras
Quando estavam em jogo apenas as gamelas.”
Vós que governais os assuntos públicos, que necessidade
tendes de aplicar castigos? Amai a virtude, e o povo será virtuoso. As virtudes
de um homem superior são como o vento; as do homem comum como o capim; e quando
sobre ele o vento passa, o capim verga-se.
Henry David Thoreau, Walden, ou a vida nos bosques, Lx,
2018, Antígona, p.193, 194, 195
A desconfiança em relação aos assuntos públicos, por parte dos que defendem ferozmente a sua individualidade como sinónimo de liberdade, não me parece alternativa. A visão da pobreza como panaceia para eliminar os males do mundo e esta visão de uma corrupção endémica do Estado e dos assuntos públicos terá, como consequência, o afastamento dos indivíduos da participação no espaço público. Sem esta participação envolvida nenhuma espécie de liberdade poderá ser garantida, pois a liberdade é, sem dúvida uma conquista de certas sociedades que abriram, ou foram forçadas a abrir o espaço público a todos os indivíduos. Mas, por inércia ou abastança ou desconfiança, afastamo-nos progressivamente desse espaço, preferimos aderir a fórmulas milagrosas, a palavras salvadoras que assentem como luva nas nossas frustrações ou mal estares, está bom de ver que o resultado não pode ser brilhante, e é arriscado. HS
“O ceticismo de Hume parece derivar da conjunção das três
proposições seguintes:
(I)
não há verdades sintéticas “a priori” a respeito
do mundo externo;
(II)
qualquer conhecimento genuíno que tenhamos do
mundo externo deve ser derivado, em última instância da experiência percetiva;
(III)
só são válidas derivações dedutivas.
(IV)
Referir-me-ei a estas três proposições,
respetivamente como a tese antiapriorista, a tese experimentalista, e a tese
dedutivista. Elas implicam que para qualquer enunciado factual h constituir conhecimento,
tem de haver premissas verdadeiras e que relatam experiências percetivas e das quais h é logicamente derivável. Mas se h fala do mundo externo e e só fala de experiências percetivas, h vai mais além de e e, portanto, não pode
ser logicamente derivado de e.
Os filósofos usam frequentemente
o termo conhecimento como uma palavra-sucesso; mas, neste livro, o termo será
usado para denotar um certo corpo organizado de saber sem a implicação de estar
livre de erro. Assim pode dizer-se: “O conhecimento médico do século dezoito
era muito imperfeito e continha muito de erróneo”. Só estará a ser usado como
palavra-sucesso quando estiver em itálico. Assim, podemos enunciar o ceticismo
de Hume como a tese de que nada do nosso conhecimento do mundo externo é conhecimento.
Podemos escolher dentro da enorme
variedade de enunciados que figuram no nosso conhecimento factual, enunciados
ocorrendo aos níveis seguintes:
nível 0: relatos de perceções na primeira pessoa, do tipo aqui e agora (por
exemplo: ‘No meu campo visual há um crescente prateado contra um fundo azul
escuro’);
nível 1: enunciados singulares sobre coisas ou acontecimentos observáveis
(por exemplo: ‘Há lua nova esta noite’;
nível 2: generalizações empíricas sobre regularidades manifestadas por
coisas e acontecimentos observáveis (por exemplo: ‘ Uma lua nova é seguida por
marés vivas’);
nível 3: leis experimentais exatas sobre grandezas físicas mensuráveis
(por exemplo: - a lei de Snell da
refração ou a lei dos gases de Charles e Gay-Lussac);
nível
4: teorias científicas que são não só universais e exatas, mas ainda postulam
entidades inobserváveis (por exemplo - a teoria dos campos de força de Faraday-
Maxwell).
O ceticismo de Hume também pode
expressar-se como a tese segundo a qual nenhum enunciado de nível 1, ou
superior, possa ser justificado por enunciados de níveis mais baixos. É uma
teoria epistemológica de carácter muito negativo. (…)
Para o ceticismo pirrónico, o mapa do conhecimento empírico é muito simples: só mostra um oceano indiferenciado de incerteza. Para o ceticismo de Hume, o mapa mostra um oceano de incerteza com uma pequena ilha de certeza no meio; esta ilha contém, para qualquer pessoa X no instante t, o conhecimento egocêntrico de X em t sobre as suas próprias experiências percetivas, etc.”
J.W.N. Watkins, Ciência e ceticismo (1984), Lx, 1990, Fundação Calouste Gulbenkian, p.15,16,17
“Muitos cientistas naturais almejam um tipo distinto de
progresso, que os filósofos a começam a reconhecer como um objetivo apropriado
para eles também.
O estereotipo do progresso científico é descobrir uma lei da
natureza. Tais leis são supostamente generalizações universais acerca do mundo
natural, que se verificam sem exceção para todos os tempos e lugares, por algum
género de necessidade: ótimo se conseguir encontrar uma. (…)
Ainda assim, a filosofia surge de um impulso natural na
curiosidade humana articulada para ir a uma espécie de extremo nas suas
questões, e uma determinação em usar os métodos mais adequados disponíveis para
lhes responder, não aceitando substitutos. Esse impulso e essa determinação não
se extinguirão facilmente.
O progresso nas teorias filosóficas resulta em progresso nos
métodos filosóficos, e o progresso nos métodos filosóficos resulta em progresso
nas teorias filosóficas. A caixa de ferramentas metodológica (…) pode seguramente
ser aperfeiçoada. Tal como outras ciências aperfeiçoam os seus métodos,
acontecerá não através de qualquer rutura melodramática com o passado, mas por
um difícil processo iterativo de auto refinamento."
Timothy Wlliamson, Filosofar, da curiosidade comum ao
raciocínio lógico, Gradiva, ,Lx, 2019, p.150
Há aqui duas visões (a deste texto e a do texto anterior) da natureza do conhecimento filosófico e do estatuto a que a Filosofia almeja. A metodologia do trabalho do filósofo também é vista de forma diferente. A história da Filosofia interpreta-se de acordo com estas duas crenças básicas. A primeira afirma que as teorias Filosóficas almejam à mesma universalidade e verdade da Ciência, têm a sua autonomia face às ciências mas uma metodologia semelhante; a segunda apela a uma visão da Filosofia cuja natureza é radicalmente diferente da ciência porque, contrariamente a esta, não obedece à fiscalidade empírica. Se analisarmos, ambas as tendências representam a própria essência do questionamento filosófico, em que a abdução não é possível pois se trata de princípios radicalmente diferentes o que, por si, tende a dar razão à segunda posição: não há forma de escolher a melhor explicação e descartar teorias filosóficas como se descartaram ao longo do tempo as teorias científicas. HS
“…Uma coisa é certa: exceto para aqueles que compreendem e até sentem o que é uma pergunta filosófica, e em que medida se distingue quer de uma pergunta empírica quer de uma pergunta formal (embora esta diferença não tenha de estar explicitamente presente ao espírito, e haja muitas perguntas que abrangem vários campos ou que estão no limite de algum ou de alguns deles) , as respostas - que, neste caso, são as principais doutrinas do Ocidente - poderão muito bem parecer fantasias intelectuais, especulações filosóficas sem fundamento na realidade, construções desprovidas de qualquer relação com ações ou eventos.
Só quem for capaz de recriar em si, de alguma maneira, o estado de espírito dos homens atormentados pelas perguntas para as quais estas teorias pretendem ser soluções, ou pelo menos o estado de espírito daqueles que poderão aceitar tais soluções de forma acrítica, mas que, sem elas, mergulhariam num estado de insegurança e ansiedade – só esses serão capazes de compreender o papel que as teorias filosóficas, especialmente as doutrinas políticas, desempenharam na história, pelo menos no Ocidente. O trabalho dos lógicos e dos físicos foi rejeitado porque foi superado; mas é absurdo sugerir que rejeitemos as doutrinas políticas de Platão, a estética ou a ética de Kant por terem sido “superadas” a superficial assimilação dos dois casos.
Poderá objetar-se a esta linha argumentativa que, se consideramos que as doutrinas éticas e políticas do passado continuam a ser dignas de atenção, é porque fazem parte da nossa tradição cultural; ou seja, que se a filosofia grega e a ética bíblica não fossem elementos constitutivos da formação intelectual no Ocidente, já estariam tão distantes de nós como as primeiras especulações chinesas. Mas o único efeito desta objeção é fazer o argumento recuar um passo: é verdade que, se as características gerais da nossa experiência -, o mais provável é que estas categorias do passado se tivessem alterado radicalmente – através de uma revolução do nosso conhecimento ou de qualquer reviravolta natural que alterasse as nossas reações -, o mais provável é que estas categorias do passado nos parecessem hoje tão obsoletas como as do Código de Hamurabi ou da epopeia de Gilgamesh. Se isso não aconteceu foi indubitavelmente, pelo menos em parte, porque a nossa experiência está organizada e “tingida” pelas categorias éticas e políticas que herdámos dos nossos antecessores, e que são lentes do passado pelas quais continuamos a olhar o mundo. Mas há muito que estas lentes nos teriam levado a tropeçar e a chocar com as coisas, tendo por isso de ser totalmente modificadas ou substituídas, como aconteceu com as lentes da biologia e da matemática, se não continuassem a desempenhar a sua função de forma mais ou menos adequada; o que significa que há um certo grau de continuidade em pelo menos dois milénios de consciência moral e política.
Isaiah Berlin, A busca do Ideal, 1973, Lx, Guerra e Paz, 2023, p.107,108
Tradução de Maria José Figueiredo
Thomas Hoepker, Itália, 1956
" Quando nos esforçamos por descrever o eu sem o assimilar a outrem, impõe-se uma primeira observação, e é a de que ele só existe de maneira intermitente e, no fim de contas, bastante rara. A sua presença corresponde a um modo de conhecimento secundário e como que reflexivo. O que se passa, realmente, de maneira primária e imediata? Pois bem! Os objetos estão lá todos, brilhando ao Sol ou recolhidos à sombra, rugosos ou macios, pesados ou leves; são conhecidos, saboreados, pesados e até cozidos, polidos, dobrados, etc. sem que esse eu que conhece, saboreia, pesa, coze, etc. por qualquer forma exista, salvo se se cumpre o ato de reflexão que me faz surgir, e ele raramente se cumpre. No estádio primário do conhecimento, a consciência que eu tenho de um objeto é o próprio objeto, o objeto é conhecido, cheirado, etc., sem que alguém que conheça, cheire, etc. Não devemos falar aqui de uma vela que projeta um raio luminoso sobre as coisas. Tal imagem deve ser substituída por outra; a dos objetos fosforescentes por si próprios, sem algo exterior a iluminá-los.
Há neste estádio ingénuo, primário e como que impulsivo, que
é o nosso modo normal de existência, uma feliz solidão do conhecido, uma
virgindade das coisas que, todas elas, possuem em si próprias, como outros
tantos atributos da sua essência – cor, odor, sabor e forma. Então Robinson é
Speranza. Só tem consciência de si através das frondes dos mirtos, onde o Sol
dardeja um punhado de flechas, só se conhece na espuma da onda deslizando sobre
a areia dourada.
E de repente a mola salta. O sujeito arranca-se ao objeto,
despojando-o de uma parte da sua cor e do seu peso. Algo estalou no mundo e um
pedaço das coisas abate-se, tornando-se eu.
Cada objeto é desqualificado em proveito de um sujeito correspondente. A luz
torna-se olho, e já não existe como tal; é só excitação da retina. O odor
torna-se narina, e o próprio mundo revela-se inodoro. A música do vento nos paletúvios é refutada; mais não é que
perturbação do tímpano. O mundo inteiro acaba-se por se fundir na minha alma,
que é a própria alma de Speranza, arrancada à ilha, a qual morrerá sob o meu
olhar cético. “
Michel Tournier, Sexta feira ou os limbos do Pacífico, S..
Paulo, Difel, 1985, p.86,87
A velha questão que nos interessa, de saber se as coisas são assim para mim, ou são mesmo assim como são para mim. Sendo que é uma questão sem forma de deslindamento. Mesmo a existência de um outro sujeito dotado de outra perceção não nos ajudaria a deslindar visto que de modo nenhum se pode saber o que são as coisas em si, mas sempre de algum modo para ti ou para mim. Seja como for, não nos conduz esta reflexão obrigatoriamente ao ceticismo, pois há sem dúvida uma partilha das mesmas determinações do objeto por vários sujeitos, o que me leva a concluir que o mais correto é estabelecer o limite de que não há O conhecimento, mas o conhecimento humano, aquele que todos, num fenómeno intersubjetivo, partilham e aferem. HS
“ O cientismo -perspetiva de que a ciência pode explicar
tudo, e que em última análise irá fazê-lo -não é o mesmo que a ciência. A
física das partículas não pretende explicar os sistemas políticos; a química inorgânica
não pretende explicar as qualidades da poesia romântica. A ciência é específica
quanto ao seu tema-os seus estudos centram-se individualmente na estrutura
fundamental da matéria, na evolução das espécies biológicas, na natureza das
galáxias distantes, no desenvolvimento das vacinas contra as infeções virais. É
uma empresa fortemente ciente de si, sempre orientada para o escrutínio a que
os cientistas submetem o seu próprio trabalho, e os trabalhos alheios, muito
antes de se aventurarem a publicá-los. O exemplo da ciência é genérico. (…)
Estas considerações obrigam-nos a confrontar os problemas
-céticos, metodológicos e admonitórios – que dificultam a investigação, e se tornam
mais claros com os recentes avanços dramáticos do conhecimento, precisamente
devido à imensa ignorância que revelam. Identifico uma dúzia deles, e
formulo-os onde for apropriado na discussão posterior. Dou-lhes as seguintes
designações:
O problema do buraco da agulha. Todas as investigações têm
como ponto de partida dados muito limitados e terrivelmente circunscritos a que
temos acesso local no espaço e no tempo, e que nos dão, do nosso ponto de vista
finito, uma perspetiva do universo e do passado como se fosse através do buraco
de uma agulha, posicionado precisamente à nossa escala. Será que com os nossos
métodos conseguimos ultrapassá-lo e ir além dele?
O problema da metáfora. Que metáforas e analogias se invoca
para dar sentido ao que estas investigações nos dizem? Poderão ser enganadoras?
O problema do mapa. Qual é a relação entre as teorias e as realidades
que constituem os seus objetos, dadas as diferenças análogas entre um mapa e o
país que esse mapa representa?
O problema dos critérios. Quais são as justificações e,
quando for necessário, as retificações para a aplicação de critérios como a “simplicidade”,
a “otimalidade” e até a “beleza” e a “elegância”, na formulação de programas de
investigação e na aprovação de resultados? Invocar estes “critérios extra teóricos”
ajuda a investigação ou distorce-a?
O problema da verdade. Dado que a investigação empírica nos
dá probabilidades refutáveis, quais são os padrões (como a escala sigma na
ciência) tidos como satisfatórios, quase certos? Sugere isto que temos de
tratar o conceito de verdade de maneira pragmática, como um objetivo da
investigação (talvez inatingível) para o qual, no plano ideal, esta converge
estrategicamente? Onde cabe aqui o conceito da própria “verdade”?
O problema de Ptolomeu. O modelo geocêntrico do Universo “funcionava”
em vários aspetos, permitindo boa navegação nos oceanos e a previsão de
eclipses, mostrando por isso que uma teoria pode ser eficaz em alguns aspetos,
apesar de ser incorreta. Como evitar que sejamos enganados pela adequação
pragmática?
O problema do martelo. Resumindo incisivamente como “se a
nossa única ferramenta fosse um martelo, tudo parece um prego”, este problema
recorda-nos que temos tendência para ver apenas o que os nossos métodos e
equipamentos são capazes de revelar.
O problema do lampião. Procuramos as chaves que perdemos
debaixo do lampião, à noite, porque é o único sítio em que conseguimos ver.
Investigamos o que é acessível á investigação pela óbvia razão de não podermos
ter acesso ao que é inacessível.
O problema da interferência. Investigar e observar pode
afetar o que está a ser investigado e observado. Quando estudamos animais no
meio selvagem, estamos a estudá-los como seriam caso não estivessem a ser
observados, ou estamos a estudar comportamentos influenciados pela nossa
observação? Daí que isto seja conhecido como “efeito do observador”. (…)
O problema da interpolação. Um problema sobretudo para a
história e as ciências psicológicas, áreas nas quais as interpretações dos dados
se fazem muitas vezes em fução de pressupostos que são próprios do tempo e da
experiência dos investigadores. Conseguiremos defender-nos contra isto, quando
é uma fonte de distorção?
O problema de Parménides. O perigo implícito do
reducionismo; reduzir tudo a um único princípio último, causal ou explicativo,
que à primeira vista parece o pior tipo de erro elementar, mas que,
curiosamente, é uma das características das ciências rígidas.
E, por último, o problema do martelo. O desejo de chegar a
uma conclusão, de ter uma explicação ou crónica completa. (…)
Estes problemas fazem alguns pensadores dizer que há coisas
que nunca poderemos saber. Dizem, por exemplo, que as questões sobre a natureza
da consciência nunca terão resposta, porque tentá-lo é como um olho que tenta
ver-se a si próprio. (…)
Na verdade, é crucial apostar nas possibilidades ilimitadas
do conhecimento; é isso que nos incentiva a procurar uma compreensão maior do Universo
e de nós mesmos.”
A.C. Grayling, As fronteiras do conhecimento, 2021, Lx, Ed.
70, p.23,24,25
Fotografia: Philip Jones Griffiths, Norte da Irlanda, 1965
…se a arte só pertence ao raro e puro génio, mesmo uma pessoa mediana em tudo, se está, com efeito, estimulada por uma forte impressão ou qualquer súbita inspiração do seu espírito, poderá compor uma bela ode, visto que para isso só precisa de uma viva intuição dos seus próprios sentimentos num momento de exaltação. Bastam, para o provar, todos esses cantos líricos de indivíduos que permanecem aliás desconhecidos, especialmente as canções populares alemães, de que temos uma excelente recolha no Wunderhorn,e também essas inúmeras canções de amor e outras, em todas as línguas. Com efeito, agarrar uma impressão do momento, e dar-lhe corpo num canto, eis em que consiste este género de poesia. Entretanto, na poesia lírica, se se encontra um verdadeiro poeta, , ele exprime na sua obra a natureza íntima da humanidade inteira. Tudo o que milhões de seres passados, presentes e futuros, sentiram ou hão de sentir nas mesmas situações que reaparecem sem cessar, ele sente-o e exprime-o vivamente. Essas situações, pelo seu eterno retorno, duram tanto quanto a própria humanidade e provocam sempre os mesmos sentimentos. Igualmente, as produções líricas do verdadeiro poeta subsistem, durante séculos, vivas, verdadeiras e jovens. O poeta é, portanto, o resumo do ser humano em geral: tudo o que alguma vez fez bater um coração humano, tudo o que a natureza humana, numa circunstância qualquer, fez brotar para fora de si, tudo o que alguma vez habitou e amadureceu num peito humano – tal é a matéria que ele trabalha, como trabalha todo o resto da natureza. Além disso, o poeta é igualmente capaz de cantar a volúpia e os assuntos místicos, de ser Anacreonte ou Angelus Silesius, de escrever tragédias ou comédias, de esboçar um carácter elevado ou comum, conforme o seu capricho ou a sua vocação. É por isso que ninguém lhe pode prescrever ser nobre e elevado, moral, piedoso, cristão, ou isto ou aquilo; ainda menos se lhe pode censurar ser isto ou aquilo. Ele é o espelho da humanidade, e traz-lhe à consciência todos os sentimentos de que ela está cheia e animada.
Trad. M.F. Sá Correia
“Pensa-se normalmente – é isso que pensa Rawls, por exemplo – que o princípio da diferença autoriza um argumento a favor da desigualdade baseado em incentivos materiais. A ideia é que as pessoas talentosas serão mais produtivas do que seriam de outra forma se, e apenas se, ganharem mais que o salário comum – e alguma da sua produção adicional pode ser usada para benefício dos mais desfavorecidos. Alega-se que a desigualdade resultante dos incentivos materiais diferenciados, justifica-se pelo princípio da diferença, pois, diz-se, esta desigualdade beneficia os mais desfavorecidos.
Contudo, pelas razões que se seguem, creio que o argumento dos incentivos a favor da desigualdade representa uma aplicação distorcida do princípio da diferença (…). Ou as pessoas acreditam que as desigualdades são injustas se não são necessárias para melhorar a situação dos mais desfavorecidos, ou não acreditam que isso é uma exigência da justiça. Se não acreditam no princípio da diferença, então a sua sociedade não é justa no sentido rawlsiano apropriado, pois uma sociedade é justa, segundo Rawls, só se os seus membros afirmam e aceitam os princípios da justiça corretos. (…)
Passemos então à outra possibilidade -as pessoas talentosas afirmam o princípio da diferença (…). Podemos perguntar por que razão, à luz da sua crença no princípio, exigem ganhar mais que os não talentosos por um trabalho que, de facto, pode requerer um talento especial, mas que não é especialmente desagradável (…). Podemos perguntar aos talentosos se o dinheiro que ganham a mais é necessário para melhorar a posição dos mais desfavorecidos -essa é a única justificação que, segundo o princípio da diferença, poderá haver para ganharem mais. Será isso simplesmente necessário? Ou será necessário apenas na medida em que os talentosos decidiriam produzir menos, ou não aceitar os lugares para os quais estão habilitados, se a desigualdade fosse eliminada (por exemplo através de impostos que redistribuíssem os rendimentos de forma a se obter um resultado perfeitamente igualitário? (…)
As pessoas talentosos não poderiam afirmar, para se justificarem (…) que as suas recompensas superiores são necessárias para melhorar a situação dos mais desfavorecidos, dado que são elas próprias que tornam essas recompensas necessárias, recusando-se a trabalhar por recompensas normais tão produtivamente como o fazem por recompensas excecionalmente altas. As recompensas altas, portanto, são necessárias apenas porque as escolhas das pessoas talentosas não obedecem propriamente ao princípio da diferença (…)
Deste modo, o princípio da diferença pode justificar a desigualdade apenas numa sociedade em que nem todos o aceitem. Não pode, portanto, justificar a desigualdade de uma forma apropriadamente rawlsiana.”
Se és igualitarista, como ficaste tão rico? G.A. Cohen pp.124-127
Em 1971, um até então obscuro professor de filosofia de
Harvard, John Rawls, publicou um livro que acabou por aclamá-lo como “o maior
filósofo político da América”. No livro “ Teoria da Justiça”, Rawls apresentou uma
descrição da justiça na forma de dois princípios, ordenando respetivamente que
as “liberdades básicas iguais” das pessoas – direitos como liberdade de
expressão, liberdade de consciência e o direito de voto — devem ser maximizados,
e que as desigualdades em bens sociais e económicos, que não sejam a liberdade,
são aceitáveis apenas se promoverem o bem-estar dos membros “menos favorecidos”
da sociedade. (Chamou este último de “princípio da diferença”).
Três anos após o aparecimento de “Teoria”, um colega do seu departamento,
Robert Nozick, publicou uma resposta libertária, “Anarquia, Estado e Utopia”,
que argumentava que só um "estado mínimo", dedicado a proteger as
pessoas contra crimes como assalto, roubo e fraude pode ser moralmente justificado.
O livro de Nozick era muito mais conciso do que a “Teoria” de Rawls e não
passou despercebido; ganhou o National Book Award de 1975 e mais tarde foi
listado pelo Times Literary Supplement como um dos 100 livros mais influentes
do século XX. “Anarquia” continua a ser um elemento imprescindível do currículo
dos cursos de teoria política, onde geralmente é o contraponto à teoria de
Rawls, para sugerir que o liberalismo do estado de bem-estar social de Rawls e
o libertarismo de Nozick representam todo o espectro de possibilidades que se
colocam às democracias liberais contemporâneas.
No entanto, a reputação e a influência de Nozick na academia - para não falar
do reconhecimento de seu nome no mundo mais amplo do direito e da política -
nunca rivalizaram com as do seu colega. (Embora 15 anos mais novo que Rawls,
Nozick morreu no mesmo ano, 2002, após uma longa luta contra o cancro.) Sem
dúvida, parte da explicação é que o “liberalismo de esquerda” de Rawls (como
ele mais tarde descreveu a sua posição) se harmoniza muito melhor com a orientação
típica do ensino contemporâneo. Além disso, ao contrário de Rawls, Nozick nunca
fez do desenvolvimento de uma determinada doutrina política, a preocupação
unificadora de sua carreira académica. Em vez disso, o seu intelecto abrangente
levou-o a continuar “Anarchy” (seu primeiro livro) com outras obras abordando
uma variedade considerável de tópicos filosóficos, do livre arbítrio à teoria
da decisão (no seu livro de 1989 “The Examined Life”) amor , morte, fé e o
sentido da vida.
Mais importante, no entanto, “Anarquia” nunca constituiu uma verdadeira
alternativa à doutrina de Rawls, uma vez que, em todas as questões
substantivas, exceto na legitimidade da redistribuição governamental da
riqueza, Nozick e Rawls concordaram. (E mesmo nessa questão, numa passagem
normalmente ignorada pelos seus admiradores, o próprio Nozick foi evasivo.
Como a “Teoria” de Rawls, “Anarquia” começa com uma declaração abrangente da
primazia da justiça – entendida, neste último livro, como direitos individuais,
definidos como liberdades, isto é, a ausência de restrições externas sobre as nossas
ações – sobre todos os outros critérios para avaliar políticas sociais e
instituições. Em outras palavras, Nozick reteve mais ou menos o primeiro
princípio de Rawls (liberdade) enquanto eliminou o segundo (diferença).
Sugerindo que “a questão fundamental da filosofia política” não é como o
governo deve ser organizado, mas “se deve haver algum estado”, Nozick oferece
uma adaptação da doutrina de John Locke de que o governo é legítimo apenas na
medida em que oferece maior segurança pela vida, liberdade e propriedade do que
existiria num “estado de natureza” caótico e pré-político. Mais enfaticamente
do que Locke, no entanto, Nozick conclui que a necessidade de segurança
justifica apenas um estado mínimo, ou “vigia noturno”, uma vez que não pode ser
demonstrado, acredita, que todos os indivíduos racionais achariam necessário um
governo mais extenso para garantir a segurança dos seus direitos.
No lugar do “princípio da diferença” de Rawls, Nozick propõe uma “teoria do
direito” da justiça, segundo a qual as propriedades individuais são
justificadas apenas se derivarem de aquisições justas ou transferências
(voluntárias). Notavelmente, Nozick nunca especifica os critérios de aquisição
justa. No entanto, em vez de visões de “corte de tempo atual” da justiça
distributiva, como a de Rawls, que avalia as participações atuais de acordo com
um padrão externo de equidade, Nozick afirma um padrão “histórico”, que
determina a legitimidade de uma distribuição apenas porque teve origem num
procedimento justo.
Nozick oferece uma crítica espirituosa e incisiva da lógica de Rawls para o seu
princípio da diferença, refutando a alegação implausível de que apenas porque
os membros de uma sociedade beneficiam da cooperação social, os membros menos
favorecidos têm automaticamente direito a uma participação nos ganhos de seus
pares mais bem-sucedidos.
O libertarismo de Nozick, que compara a tributação da renda ao trabalho forçado, sofre, no entanto, de um defeito correspondente. Nozick nunca reconhece a necessidade de um regime liberal para garantir um certo nível de segurança social e benefícios educacionais a todos os cidadãos, na medida em que suas circunstâncias permitirem, nem que seja para garantir a lealdade contínua dos pobres a esse regime. Como Rawls, Nozick procurou impor uma visão abstrata de justiça na vida política, relegando considerações de viabilidade (isto é, de conformidade com as prováveis demandas de seres humanos reais) para serem resolvidas por outros, no espírito da máxima de Immanuel Kant, “que a justiça triunfe, ainda que, por ela, pereça o mundo”.
Ironicamente, no entanto, o próprio Nozick finalmente reconhece que sua teoria do direito é insuficiente para refutar a necessidade de um estado redistributivo, uma vez que nunca pode ser demonstrado se as propriedades existentes derivam de uma série ininterrupta de transferências voluntárias ou se derivam de algum ato original de conquista injusta. Assim, surpreendentemente, ele acaba sugerindo que algo como o princípio da diferença de Rawls é moralmente exigido afinal, em nome da “retificação”, na duvidosa premissa de que aqueles atualmente menos favorecidos têm a maior probabilidade de serem descendentes de vítimas anteriores de injustiça.
Esta não é a única área de acordo entre Nozick e Rawls. Como Rawls, Nozick insiste que a justiça de uma sociedade seja avaliada apenas por causa da correspondência dos seus procedimentos com as noções preferidas de justiça, e não por realmente recompensar modos de vida moralmente dignos. Também como Rawls, Nozick termina seu livro representando a sociedade justa como moralmente libertária ao extremo, negando implicitamente a legitimidade de leis que proíbem práticas como a prostituição e a venda de drogas viciantes.
Embora tenha reparado a sua crítica às falhas que descobriu na teoria de Rawls, com uma notável homenagem à sua ostensiva “beleza”, Nozick era muito mais brilhante e um escritor muito melhor e mais instigante do que o seu colega. Infelizmente, compartilhava com Rawls uma visão restrita da filosofia política como um empreendimento dedicado à produção de teorias abstratas, com pouca ou nenhuma consideração pela fundamentação da justiça na natureza humana. Aqueles que buscam uma alternativa ao igualitarismo superficial e ao libertarismo moral de nosso tempo fariam muito melhor em retornar ao pensamento dos maiores estadistas da América, como Lincoln e os autores de “The Federalist”; aos filósofos liberais que os guiaram, nomeadamente Locke e Montesquieu, e finalmente aos maiores filósofos clássicos, para os quais a teorização política era inseparável da busca por uma séria compreensão empírica da condição humana e do bem humano.
David Lewis Schaefer, "Robert Nozick and the Coast of Utopia," New York Sun, April 30, 2008.
David Seymour (Polónia, 1911/1956), 1º dia de escola, Vila de Pilis,
Analisemos
agora uma experiência mental: suponhamos que, ao reunir-nos para definir os
princípios, não saibamos a qual categoria pertencemos na sociedade. Imaginemo-nos cobertos por um “véu de ignorância” que temporariamente nos impeça de saber
quem realmente somos. Não sabemos a que classe social ou género pertencemos e
desconhecemos a nossa raça ou etnia, as nossas opiniões políticas ou crenças
religiosas. Tampouco conhecemos as nossas vantagens ou desvantagens — se somos
saudáveis ou frágeis, se temos alto grau de escolaridade ou se abandonámos a escola,
se nascemos numa família estruturada ou numa família desestruturada. Se não
possuíssemos essas informações, poderíamos realmente fazer uma escolha a partir
de uma posição original de equidade. Já que ninguém estaria numa posição de
negociação superior, os princípios escolhidos seriam justos. É assim que Rawls
entende um contrato social — um acordo hipotético numa posição original de
equidade. Rawls convida-nos a raciocinar sobre os princípios que nós — como
pessoas racionais e com interesses próprios — escolheríamos caso estivéssemos
nessa posição. Ele não parte do pressuposto de que todos sejamos motivados, na
vida real, apenas pelo interesse egoísta; pede apenas que deixemos de lado as nossas
convicções morais e religiosas para realizar essa experiência mental. Que
princípios escolheríamos?
Primeiramente, raciocina, não optaríamos pelo utilitarismo. Sob o véu de ignorância, cada um de nós ponderaria: “Pensando bem, posso vir a ser membro de uma minoria oprimida.” E ninguém arriscaria ser o cristão que é atirado aos leões para o divertimento da multidão. Nem escolheríamos o simples laissez-faire, o princípio libertário que daria às pessoas o direito de ficar com todo o dinheiro que ganhassem numa economia de mercado. “Posso acabar por ser o Bill Gates”, alguém raciocinaria, “mas também posso, por outro lado, ser um sem-abrigo. Portanto, é melhor evitar um sistema que me deixe desamparado e na penúria. “
Rawls acredita que dois princípios de justiça, poderiam emergir do contrato hipotético. O primeiro oferece as mesmas liberdades básicas para todos os cidadãos, como liberdade de expressão e religião. Esse princípio sobrepõe-se a considerações sobre utilidade social e bem-estar geral. O segundo princípio refere-se à equidade social e económica. Embora não requeira uma distribuição igualitária de renda e riqueza, ele permite apenas as desigualdades sociais e económicas que beneficiam os membros menos favorecidos de uma sociedade. Os filósofos questionam se os participantes do contrato social hipotético de Rawls escolheriam os princípios que ele afirma que escolheriam. Mais à frente veremos por que Rawls acha que esses dois princípios seriam escolhidos. Mas, antes de abordar os princípios, analisemos uma questão anterior a essa: A experiência hipotética de Rawls é a maneira correta de abordar a questão da justiça? Como podem princípios da justiça resultar de um acordo que jamais aconteceu de fato?
Michael Sandel, Justiça, Lx, Presença, pp.150, 151